Queríamos concluir indicando os três aportes fundamentais do marxismo ao estudo da sociedade. Em primeiro lugar, a importância decisiva que Marx destina ao estudo da totalidade social, por contraposição à esterilidade das visões fragmentadoras e reificadoras das relações sociais características do pensamento burguês tanto em sua versão convencional como em suas correntes “científicas”, como a sociologia, a economia, a ciência política e o disperso campo das ciências sociais em geral. Contra tais enfoques, recordar, como fizemos acima, que o método de análise de Marx mostrado em sua famosa Introdução de 1857 sustenta que: “o concreto é o concreto porque é a síntese de múltiplas determinações”, portanto, unidade do diverso. Não se trata, em conseqüência, de pousar os olhos sobre a totalidade ao preço de suprimir ou negar a existência do “diverso”.

Esta totalidade indiferenciada daria lugar ao que um filósofo como Karel Kosik apropriadamente descrevia como uma “totalidade abstrata”, um todo formal carente de conteúdo e privado de toda eficácia heurística. Trata-se, ao contrário, é de encontrar os termos exatos da relação dos elementos múltiplos e diversos que constituem a totalidade social entre si e com o todo do qual formam parte. Somente desse modo será possível reconstruir, no pensamento, a totalidade concreta que existe na realidade.

À visão marxista da totalidade somamos um segundo aporte: uma construção teórica que recupera a complexidade e historicidade do social. Ante um clima de época propenso a exitismos burgueses de todo tipo –suas proclamações do fim da história e o triunfo da economia de mercado e da democracia liberal, sem ir mais longe– convém tomar devida nota das críticas do materialismo histórico à tradição positivista nas ciências sociais e que hoje reaparecem, sob uma nova roupagem, como orientações supostamente inovadoras do pensamento científico avançado. De fato, nos referimos, entre outras, às críticas marxianas, à linearidade da lógica positivista, à simplificação das análises tradicionais que reduziam a enorme complexidade das formações sociais a algumas poucas variáveis quantitativamente definidas e mensuradas, e à insensata pretensão empirista de um observador completamente separado do objeto de estudo. Como muito bem se observa no Informe Gulbenkian, coordenado por Immanuel Wallerstein (1996), as novas tendências imperantes sublinharam a não-linearidade sobre a linearidade, a complexidade sobre a simplificação, a impossibilidade de remover o observador do processo de medição e da superioridade das interpretações qualitativas sobre a pseudoprecisão das análises quantitativas. Por tudo isso deveria celebrar-se também a favorável recepção que teve a insistência de Ilya Prigogine, um dos redatores

do mencionado informe, em marcar o caráter aberto e não pré-determinado da história. Seu reclamo é uma útil recordação para os dogmáticos de distinto signo: tanto para os que a partir de uma postura “supostamente marxista” –na realidade antimarxista e não dialética– crêem na inexorabilidade da revolução e o advento do socialismo, como para os que com a mesma obstinação celebram “o fim da história” e o triunfo dos mercados e da democracia liberal.

Segundo o marxismo, a história implica a sucessiva constituição de conjunturas. Claro que, diferentemente do que propõem os pós-modernos, estas não são o produto da ilimitada capacidade de combinação “contingente” que têm os infinitos fragmentos do real. Existe uma relação dialética e não mecânica entre agentes sociais, estrutura e conjuntura: o caráter e as possibilidades desta última encontram-se condicionados por certos limites histórico-estruturais que possibilitam a abertura de certas oportunidades à vez que enclausuram outras. Marx sintetizou sua visão não determinista do processo histórico quando prognosticou que, em algum momento de seu devir, as sociedades capitalistas deveriam enfrentar o dilema de ferro engendrado por elas mesmas: “socialismo ou barbárie”. Não há lugar em sua teoria para “fatalidades históricas” ou “necessidades inelutáveis” portadoras do socialismo com independência da vontade e da eficácia das iniciativas dos homens e mulheres que constituem uma sociedade.

Finalmente, a relação entre a teoria e a práxis ocupa um terceiro lugar-chave na recuperação da vitalidade que o marxismo pode insuflar às lânguidas ciências sociais. Não desconhecemos aquilo que Perry Anderson denominara “o marxismo ocidental” caracterizado precisamente pelo “divórcio estrutural entre este marxismo e a prática política”. Este divórcio entre teoria e prática e entre reflexão teórica e insurgência popular, cuja integração foi tão importante no marxismo clássico, teve conseqüências que nos resultam demasiado familiares em nosso tempo. O golpe decisivo para voltar a reconstituir o nexo teoria/práxis somente poderá aportá-lo a contribuição de um marxismo já recuperado de seu extravio “ocidental” e reencontrado com o melhor de sua grande tradição teórica.

As causas da deserção dos intelectuais do campo da crítica e da revolução são muitas, e não podem ser exploradas em sua complexidade nos limites de um artigo. Em todo caso, digamos que dos dois fatores mais importantes que a explicam relacionam-se com a formidável hegemonia ideológica-política do neoliberalismo e o afiançamento da “sensibilidade pós-moderna”. Ante os estragos feitos por ambas as ideologias, devemos recordar, quantas vezes necessário for, que Marx não estava interessado em desvendar os

mais recônditos secretos do regime capitalista por mera curiosidade intelectual, mas sim sentia-se urgido pela necessidade de transcendê-lo, dada a radical impossibilidade de construir, dentro de suas estruturas, um mundo mais justo, humano e sustentável. E essa impossibilidade é ainda mais patente e inflexível hoje, no começo do século XXI do que foi no final do XIX. Daí que a reintrodução do marxismo no debate filosófico-político contemporâneo –assim como na agenda dos grandes movimentos sociais e forças políticas de nosso tempo– seja uma das tarefas mais urgentes e produtivas da hora.

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