Quem se proponha examinar a validade do marxismo como instrumento de análise e transformação do mundo contemporâneo, não pode prescindir do exame do vínculo entre Hegel e Marx. Convém, por isso mesmo, começar retomando algumas colocações metodológicas de Marx não sempre devidamente recordadas e, no entanto, sumamente esclarecedoras. No epílogo à segunda edição de O Capital, publicado em 1873, Marx alude explicitamente à sua relação com Hegel e à sua concepção do método dialético. Em uma passagem desse texto, de que citamos a continuação de maneira abreviada, Marx afirma que: (M)eu método dialético não somente difere do de Hegel […] mas também é sua antítese direta.

 Para Hegel o processo do pensar, ao qual converte inclusive, sob o nome de idéia, em um sujeito autônomo, é o demiurgo do real” (aclaremos, pelas dúvidas, que a expressão “demiurgo” significa “princípio ativo do mundo”). E prossegue Marx dizendo, para marcar suas diferenças, que Para mim, ao contrário, o ideal não é senão o material transposto e traduzido na mente humana.

Há quase trinta anos submeti à crítica o aspecto mistificador da dialética hegeliana, em tempos em que ainda estava em moda. Mais precisamente quando trabalhava na preparação do primeiro tomo de O Capital os irascíveis, presunçosos e medíocres epígonos que levam hoje a voz cantante na Alemanha culta trataram Hegel […] como a um ‘cachorro morto’.

Declarei- me abertamente, pois, discípulo daquele grande pensador e cheguei inclusive a coquetear aqui e lá, no capítulo acerca da teoria do valor [note-se! Nada menos que nesse capítulo!], com o modo de expressão que lhe é peculiar. A mistificação que sofre a dialética nas mãos de Hegel de modo algum obsta para que tenha sido ele que, pela primeira vez, tenha exposto de maneira ampla e consciente as formas gerais do movimento daquela. Nele a dialética está posta ao revés. É necessário dar-lhe volta, para descobrir assim o núcleo racional que se oculta sob a envoltura mística (Marx, 1975: 19-20).

Marx conclui essa luminosa passagem dizendo que:

(E)m sua forma mistificada a dialética esteve em voga […] porque parecia glorificar o existente. Em sua figura racional, é escândalo e abominação para a burguesia e seus porta-vozes doutrinários, porque na intelecção positiva do existente inclui, também, o próprio tempo, a inteligência de sua negação, de sua necessária ruína; porque concebe toda forma desenvolvida no fluir de seu movimento e, portanto, sem perder de vista seu lado perecível; porque nada a faz retroceder e é, por essência, crítica e revolucionária (Marx, 1975: 19-20, as cursivas sã nossas).

Essas linhas permitem apreciar em toda sua magnitude a importância da conexão Hegel- Marx e, ainda mais importante, a íntima relação entre teoria e método. Vejamos isso com certo detalhe.

As formas da dialética

Marx nos diz que esta se apresenta sob duas formas. Uma “mistificada”, que marcha sobre sua cabeça, e que concebe a realidade como uma projeção fantasmagórica da idéia (assim, com ênfase, como o colocava Hegel). A idéia, mistificada, converte-se conseqüentemente, no “demiurgo do real”, o princípio motor de toda a história. Marx sustenta, entretanto, que há outra forma da dialética. Uma forma racional, e sob a qual aquela marcha sobre seus pés.

Trata-se da dialética que expressa as contradições sociais em seus diferentes planos: um, mais geral, que contrapõe o desenvolvimento das forças produtivas com as relações sociais de produção; outro, mais particular, configurado pelo desenvolvimento concreto das lutas de classe. Sob esta perspectiva, as idéias aparecem como a projeção –mais ou menos mediatizada, mais ou menos deformada– das contradições sociais que são as verdadeiras fazedoras da história.

Não se trata de que para o marxismo as idéias “não contam”, como rotineiramente acusa o saber convencional das ciências sociais, mas sim que elas “contam” enquanto são expressões  rudimentares ou excelsas, fragmentárias ou sistemáticas– das contradições sociais.

As premissas do método dialético

Este método propõe reproduzir, no plano do intelecto, o desenvolvimento que tem lugar no processo histórico. Coube a Hegel o mérito de ter descoberto as formas gerais de movimento da dialética. Só que, ao plasmar suas descobertas, o que fez foi cristalizar uma visão mistificada e fetichizada da dialética. Recuperada sua “figura racional”, como dizia Marx, a dialética deixa, então, de ser um inofensivo recurso retórico para tornar-se “escândalo e abominação para a burguesia”, e isso por muitas fundadas razões:

Porque sustenta que o conflito social é onipresente

A dialética, em sua “figura racional” diz que a história não é outra coisa senão a interminável demonstração das contradições sociais. Se em Hegel estas ficam encapsuladas no plano das idéias, em Marx o “lar” das mesmas se situa na sociedade civil. Ali tropeçamos com as classes e seus irreconciliáveis antagonismos e com as contradições entre as forças produtivas e as relações sociais de produção.

Esta visão que nos oferece a dialética questiona frontalmente tanto os fundamentos ideológicos do pensamento medieval/feudal –com seu axioma que postula a unidade e organicidade do corpo social– como os do pensamento burguês que se constrói a partir da premissa da harmonia de interesses que se compensam no âmbito do mercado e do Estado.

Em um caso temos a grande construção de Tomás de Aquino e, no outro, a de Adam Smith. Além de seus diferenciais, tanto um como outro aderem a uma perspectiva (a ordem natural do universo que culmina na figura de Deus no primeiro, a “mão invisível” no segundo) que considera as contradições e conflitos sociais como desajustes temporais e fricções marginais, atribuíveis a fatores circunstanciais ou alheios à lógica do sistema. Folga esclarecer que tais visões terminam por ratificar o caráter “natural”, eterno e imutável do status quo.

Porque a lógica na história não é de identidade senão de contradição

A história não é uma caprichosa e azarada acumulação de acontecimentos senão que, além de seus traços idiossincrásicos e seus ocasionais desvios, existe um sentido discernível para o observador que concentre seu olhar nas correntes profundas do processo. A partir dessa perspectiva, a história é sempre história de um modo de produção, verdade elementar negada pelo pensamento burguês que assimila a história à crônica de acontecimentos.

A história contemporânea tem um sentido fortemente condicionado pelas necessidades e contradições geradas pela acumulação capitalista. Um corolário do anterior é que a lógica que preside seu movimento não é de identidade, mas sim de contradição. O que parece às vezes não é; o contrário também é válido, e contém em seu seio sua própria negação. “O concreto é o concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, portanto, unidade do diverso”, diz Marx, em linha com esta tese, em sua Introdução de 1857 (1974: 58).

Essa unidade do diverso expressa o caráter inevitavelmente contraditório de todo o social, negado sistematicamente por todas as variantes do pensamento burguês. Conceber a história a partir da perspectiva da lógica da identidade, como o faz a ideologia dominante, significa assumir, muitas vezes sem se dar conta disso, que aquela se move a mercê do influxo de mudanças acumulativas constituídas por sua vez por uma sucessão de pequenos incrementos quantitativos que, em seu conjunto, motorizam a evolução do sistema.

Dessa perspectiva, resolvidamente linear e evolucionista, não há lugar para descontinuidades, quebras ou rupturas. O processo histórico é visto, sob esta luz, como uma gradual acumulação de sucessos ou, no máximo, como uma seqüência ordenada de etapas. Para esta visão, profundamente conservadora, a revolução é somente concebível como uma aberrante patologia que, por causas exógenas –a ação de agentes perversos empenhados em subverter “a ordem natural do universo”–, viria interromper o curso “normal” da história.

No pensamento marxista, ao contrário, o processo histórico está precisamente impulsionado pela incessante dinâmica que geram as contradições e os conflitos sociais e as revoluções sociais, longe de ser extravios do bom caminho da história, não são senão os grandes momentos que, ao definirem o provisório resultado dos antagonismos sociais, marcam os momentos fundantes de seu deterioramento. Claro está que, chegados a este ponto, é preciso recordar a diversidade das contradições e antagonismos que se geram nas sociedades capitalistas e, por isso mesmo, a grande variedade dos sujeitos que as encarnam.

Porque ao consagrar a provisoriedade e historicidade de todo o existente, é socialmente corrosiva e radical

Resultam evidentes, a esta altura da argumentação, as razões pelas quais uma metodologia como a dialética provoca aversão nas filas da burguesia e seus representantes ideológicos. E também para aqueles que, sem o ser, coincidem com aqueles em condenar inapelavelmente o valor da metodologia dialética para a análise da realidade social.

Isso se percebe claramente como um dos traços distintivos da corrente mal chamada “pós-marxista”, melhor caracterizada como “ex-marxista”, e que inclui figuras como Ernesto Laclau, Chantal Mouffe, Régis Debray, Ludolfo Paramio e os inefáveis Michael Hardt e Antonio Negri (os quais, em Império, se consolam toscamente em uma crítica vulgar e superficial à dialética), que terminam produzindo discursos teóricos que, sem exceção, acabam respaldando as teses fundamentais do pensamento da direita.

Tal é o caso da famosa “radicalização da democracia” de Laclau e Mouffe quando estes autores propõem, em Hegemony and Socialist Strategy, radicalizar nada menos que a democracia burguesa como se esta tivesse uma maleabilidade infinita que permitisse transcender seus limites de classe2. Ou a utilíssima e oportuníssima (para a direita, é claro) “nova teorização” sobre o imperialismo, desenvolvida por Hardt e Negri no livro Império, que não por casualidade foi jubilosamente recebido pelos mandarins imperiais como uma brilhante contribuição ao estudo do capitalismo contemporâneo.

O nexo subterrâneo que unifica estes representantes do pensamento convencional, mesmo que eles pensem o contrário, é seu comum rechaço à dialética; a mesma que, “em sua figura racional”, provoca as mais furiosas reações das classes dominantes e seus epígonos. Por quê? Porque, como o argumentava Marx, junto à “intelecção positiva do existente inclui, também, o próprio tempo, a inteligência de sua negação, de sua necessária ruína” (Marx, 1974: 93).

Isto é, a dialética proclama a inevitável historicidade de todo o social e, ao fazê-lo, condena as instituições e práticas sociais fundamentais da sociedade burguesa a seu irremissível desaparecimento, algo que o pensamento imperialista da decadência, tanto em sua vertente neoconservadora como em sua  linhagem “ex -marxista”, considera totalmente inadmissível.

A metodologia dialética é, pois, irreconciliável com a aspiração capitalista de “eternizar” sua sociedade e suas instituições, de fazê-las aparecer, como diria Francis Fukuyama, como “o fim da história” (1997). Sob sua luz a propriedade privada dos meios de produção, o capitalismo democrático e a relação salarial tanto como o caráter mercantil de toda a vida social aparecem como o que realmente são: fenômenos históricos e, portanto, passageiros, que podem e devem ser transcendidos pela ação das classes e camadas subalternas.

As contradições que se agitam em seu seio provocarão, cedo ou tarde, seu declínio definitivo. Por isso, como recordava Marx, “a dialética é, por essência, crítica e revolucionária”. E, por isso mesmo, nas ciências sociais dominadas pelas concepções filosóficas próprias da burguesia –o economicismo, o nihilismo pós-moderno, etc.– a batalha contra da epistemologia dialética é uma luta sem quartel e sem concessão alguma.

Não há outra concepção que contenha premissas semelhantes, e que questione tão radical e intransigentemente a ordem social existente. Por isso mesmo, podemos concluir, sem temor de exagerar, que sem pensamento dialético não há pensamento crítico. Sem um esboço que obrigue a identificação permanentemente das contradições e das tensões de um sistema, e que faça desta operação o princípio metodológico fundamental de qualquer análise social, não há possibilidades de alimentar o pensamento crítico.

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