Neste contexto, um marxismo depurado dos vícios do dogmatismo e do sectarismo escolástico parece melhor dotado que ninguém para impedir tão deplorável final. Fica claro, então, que o marxismo a que nos estamos referindo não se esgota nos estreitos limites da biografia de seu fundador. Por mais extraordinária que tenha sido o labor fundacional de Marx, ao riquíssimo legado que nos deixasse sua obra devemos somar- lhe os aportes daqueles que seguiram seus passos –como Friedrich Engels, Vladimir I. Lênin, Rosa Luxemburgo, León Trotsky, Nicolai Bujarin, Gyorg, Lúkacs, Antonio Gramsci, entre tantos outros- e o foram desenvolvendo em um processo inacabado que chega até nossos dias.

O marxismo, em suma, é uma tradição vivente que reanima seu fogo na incessante dialética entre o passado e o presente. Não se trata de um sítio arqueológico no qual descansa uma teoria que somente pode despertar a curiosidade de filólogos e professores de filosofia. Isso pode valer para outros sistemas teóricos, desde a astronomia ptolemaica até a teoria das mônadas de Leibnitz. Mas, como metáfora, a imagem de um sítio (lugar onde se encontram restos fósseis de animais, plantas ou idéias) não poderia ser mais inapropriada na hora de compreender a natureza do marxismo como teoria e como prática social.

É que longe de ser um livro fechado ou um edifício concluído que encerra atrás de suas portas todas as respostas e toda a verdade, o marxismo é o que Sheldon Wolin definiu como uma “tradição de discurso”, na qual as perguntas são tão importantes como as respostas (Wolin, 1993). Entende-se, portanto, que se não se recupera a teoria marxista – esse corpus altamente dinâmico, historicamente simples, de perguntas e de certezas– não haverá reconstrução possível da ciência social.

Não obstante, a recuperação sozinha não basta. Se também devemos recorrer à psicanálise, ou aos estudos culturais, ou à lingüística ou à teoria da complexidade é uma discussão que ainda não está fechada. Aquilo que não deixa lugar para dúvidas é a obsolescência da absurda pretensão do “marxismo soviético”, de sintetizar em um daqueles patéticos manuais (“antimarxistas” e “antileninistas” por excelência!) as respostas que o marxismo supostamente oferecia à totalidade dos desafios teóricos e práticos do mundo atual e que se desvaneceu, sem deixar rastros, com a desintegração da União Soviética.

Imre Lakatos aporta uma visão polêmica sobre a teoria marxista ao dizer que se trata de um programa de investigação cujo núcleo duro –digamos, por exemplo, a mais-valia como o segredo da exploração capitalista, a luta de classes como motor da história, o caráter de classe do estado, a necessidade objetiva da revolução, etc.– é irrefutável enquanto que as “teorias laterais” ou tangenciais que se articulam em torno do núcleo duro (como a teoria do partido, a da consciência reflete, a da “aristocracia trabalhadora”, etc.) podem ser refutadas sem que o mesmo se veja afetado.

Dizíamos que, além de sua eficácia didática, esta imagem é altamente controversa porque reduzir o marxismo a um programa de pesquisa é torná-lo gratuitamente pequeno e sem fundamento, dado que como teoria científica e como “guia para a ação” é muito mais do que uma simples agenda de pesquisa.

É por isso que, independentemente das críticas que mereça a formulação de Lakatos, parece oportuno recordar seu raciocínio em momentos como o atual, quando se agravam as desqualificações para o marxismo como teoria da sociedade e se pretende demonstrar seu erro a partir da invalidação prática de alguns de seus componentes mais tangenciais, como, por exemplo, a debilidade da consciência anticapitalista nas classes exploradas, ou a bancarrota do modelo clássico do partido revolucionário.

Há muito tempo, vem-se dizendo que uma das razões pelas quais as ciências sociais não progridem na América Latina é devido à debilidade de seus esforços em matéria de pesquisa empírica. O caráter fortemente conservador deste argumento salta à vista: sutilmente se assegura que as teorias hegemônicas são corretas e que o que ocorre é que não há suficientes pesquisas para respaldá-las adequadamente.

Mas uma simples olhada ao acontecido em nossa região nos últimos vinte anos comprova, contrariamente ao que dita o saber convencional, a existência de um impressionante acúmulo de pesquisas, estudos e monografias nas quais se examinam –às vezes com grande detalhe– os mais diversos aspectos de nossas sociedades. No entanto, de forma geral, tamanha extraordinária acumulação de informação empírica não transcendeu o plano descritivo nem abriu as portas a novas e mais fecundas interpretações teóricas.

Por causa de tudo isso, é bem fácil de entender: as debilidades de uma teoria não se resolvem com a acumulação de dados empíricos nem com a cuidadosa compilação de resultados de pesquisa1. As falhas da teoria somente se resolvem concebendo novas teorias, de diferentes níveis de complexidade e extensão, e propondo novos argumentos que enfocam, a partir de outra perspectiva, a realidade que se pretende explicar e, eventualmente, transformar.

Devemos, por essa razão, propiciar uma renovação teórica porque as falências dos modelos tradicionais para explicar a prolongada e profunda crise pela qual atravessa a região não se originam na debilidade de sua base empírica senão nas falhas de suas premissas teóricas fundamentais. Cremos, em conseqüência, que um marxismo racional e aberto pode contribuir decisivamente para superar esta situação, dotando-nos de instrumentos idôneos para interpretar e mudar o mundo. Somente com o marxismo não o conseguiremos, mas sem o marxismo tampouco.

houvesse refutado todas e cada uma das teses de Karl Marx, tal e como o conjeturava Lúkacs em sua brilhante História e Consciência de Classe. Em tais circunstâncias, um marxista “ortodoxo” poderia aceitar tais descobrimentos sem maiores problemas e abandonar as teses de Marx sem que essa atitude questionasse sua identidade teórica.

Como explicar semelhante paradoxo –conhecido como “o paradoxo de Lúkacs”? A resposta que nos oferece o teórico húngaro é a seguinte: o marxismo “ortodoxo” (expressão que ele utiliza sem as aspas que nos parece conveniente agregar) não supõe a aceitação acrítica dos resultados das pesquisas de Marx, nem a de tal ou qual tese de sua obra, nem muito menos a elucidação de um livro “sagrado” (aqui as aspas são de Lúkacs).

Pelo contrário, a ortodoxia marxista refere-se exclusivamente à concepção epistemológica geral de Marx, o materialismo dialético; e não aos resultados de uma indagação particularmente guiada pela metodologia. Para Lúkacs, esta concepção expressada por meio de numerosos e variados métodos que podem ser desenvolvidos, expandidos, aprofundados em consonância com os grandes delineamentos epistemológicos esboçados por seus fundadores.

No nosso entender, da argumentação precedente pode-se inferir a possibilidade de pensar o marxismo como uma proposta que consiste de dois componentes, separáveis e independentes: a teoria e o método. No entanto, como o próprio Lúkacs demonstra com sua obra, não há tal cisão e sim, ao contrário, uma estreita unidade entre teoria e método. De onde se segue que, a refutação das teses centrais da teoria dificilmente poderia deixar intacta a concepção epistemológica e metodológica que lhe é própria; e que a demonstração da inadequação desta última afetaria gravemente a validade da primeira.

Hoje, podemos dizer que o capitalismo enquanto sistema altamente dinâmico apresenta mecanismos de exploração e, portanto, de extração de mais-valia mais complexos e diversificados que os existentes no tempo de Marx e Engels. Mas tudo isto significa que os capitalistas não compram mais força de trabalho (se bem que de características bem diferentes às de antes, e mediante processos não exatamente iguais)? Ou, se o fazem, pagam um preço distinto ao que dita a reprodução da mesma, pondo deste modo fim à relação salarial examinada criticamente por Marx em O Capital? Ademais, o que faz o capitalista quando adquire essa força de trabalho? Retribui ao trabalhador a totalidade do produzido em sua jornada de trabalho, ou fica com uma parte? Desaparece a exploração, ou persiste sob renovadas formas?

Se a teoria da mais-valia fosse refutada, a construção metodológica do marxismo se veria irreparavelmente danificada; se se chegasse a demonstrar que o método dialético é um mero recurso retórico e não uma estratégia válida de reconstrução do real no plano do pensamento, as teses centrais da teoria marxista dificilmente poderiam sobreviver.

Entretanto, ainda não ocorreu nada disso. Não podemos dizer: a exploração morreu!; Antes, devemos trabalhar duro em favor de um marxismo racional e aberto para interpretar e abarcar acabadamente a complexidade atual. Neste sentido, o livro de Ralph Miliband (1997) constitui um aporte de riqueza incalculável pela forma com que rediscute as teses centrais da teoria marxista e por sua abertura à consideração da nova agenda que propõe a crise do capitalismo e os movimentos sociais e forças políticas que em luta por sua abolição.

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